São quase 10 horas, e o movimentado lobby do hostel no número 891 da Amsterdam Avenue  já está lotado. A turma é grande e está ansiosa. Adolescentes, adultos, mulheres, homens, pessoas de todos os tipos e de diferentes países e sotaques esperando por um senhor de 77 anos chamado Jerry Balch, auto-promovido o mais famoso guia turístico da cidade de Nova York.

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Com sua pequena mochila nas costas, uma câmera fotográfica, tênis surrados e muita disposição, ele chega anunciando: “Ladies and gentlemen, you’re about to begin not only a journey, but also an adventure.”

Quatorze horas por alguns dos principais pontos turístico da cidade que nunca para. Isso mesmo, o Grand Tour of New York City, realizado pelo nosso personagem há quase duas décadas, dura praticamente o dia todo. O valor? Quase simbólicos US$ 10.

É uma verdadeira maratona. Ao todo, 18 milhas – ou nada menos do que 28.968 quilômetros – passando pelo Brooklyn e sua famosa ponte gótica, ferry até Staten Island, Ground Zero (onde fica o One World Trade Center e o 9/11 Memorial), Union Square, Chinatown, Little Italy, Soho, Grand Central Terminal, o belo Battery Park e as luzes da Times Square para fechar o dia.

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Aos 77 anos, Jerry é um verdadeiro entusiasta por Nova York. Para ele, comparar outras cidade com a Big Apple é como tentar fazer um paralelo entre outras montanhas e o Everest. Ele sabe do que está falando. Nosso guia conhece as mais incríveis histórias da cidade, seus famosos prédios, igrejas, distritos e personalidades do passado e do presente, como John D. Rockefeller Jr., Jay Z e Beyoncé.

Entre as risadas e cantorias do ex-professor de Ciências, percebo que o Grand Tour é meticulosamente planejado. Quando começo a sentir os primeiros sinais de cansaço, depois de muitas estações de metrô e algumas horas de caminhada, Jerry nos apresenta mais um belo cartão postal. Em um dia de céu azul, o que dizer do ferry lotado até Staten Island, passando bem ao lado da Estátua da Liberdade e calmamente se distanciando da parte sul de Manhattan?

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“Todo mundo gosta de passear de barco”, diz Jerry.

Seguindo entre um destino e outro, me chama a atenção seu interesse pelas pessoas. Na área dos ataques do 11 de setembro, faz questão de lembrar a todos a importância de se respeitar os milhares que ali perderam suas vidas.

Em outros locais, por diversas vezes, Jerry aborda anônimos na rua. Muitas vezes apenas para desejar um bom dia, outras pedindo por uma simples foto. “Não sorria, apenas olhe para a câmera”, instrui, antes de disparar com sua Fuji de filme 30mm. Para ele, Nova York oferece todos os rostos e todas as feições em cada esquina.

Não poderia deixar de concordar. No jantar, em um restaurante indiano, percebo que nosso grupo é formado por um taiwanês, uma espanhola, um canadense, uma holandesa, um brasileiro e um alemão que mora na Suíça, além do nosso guia nova-iorquino.

Durante a entrada e o prato principal, Jerry explica o que o levou a criar o Grand Tour. Quando tinha 20 e poucos anos, ele decidiu viajar de bicicleta pela Europa. “Fui sozinho e naquela época, obviamente, não havia as facilidades de hoje para se buscar informações sobre os destinos turísticos. Cheguei em Paris, não sabia para onde ir ou o que comer”, disse Jerry.

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Com o Grand Tour, quem visita Nova York sabe para onde ir. E quase um dia inteiro depois, a aventura termina na mais famosa esquina do mundo: a Times Square. Distraído, sigo um pouco a frente do grupo quando ouço o alerta: “Não me perca de vista. Se eu sumir na multidão, nunca mais irá me encontrar”, avisa Jerry.

Aproveito a chance para me aproximar mais, ouvir as últimas histórias da noite e agradecer pelo excelente passeio. Quando descobre que sou jornalista, Jerry diz sem pensar duas vezes: “Bom, talvez agora você escreva boas histórias sobre mim”.

Espero que esta esteja à sua altura, Jerry!