“Nossa, mas já é Natal!”. Quem nunca ouviu essa frase de alguém que nota pela cidade os primeiros enfeites natalinos do feriado de 25 de dezembro?

Todo mundo algum dia já teve a estranha sensação de que o tempo passa cada vez mais rápido. No final do ano, época em que geralmente fazemos um balanço da vida, a impressão é de que os últimos 12 meses passaram “voando”. Na fase adulta, então, é como se o tempo nos atropelasse.

Você tem a impressão de que 2015 passou mais veloz do que 2014? E que, olhando sua vida em retrospecto, ano após ano, tudo passou a acontecer num ritmo mais frenético?

Faz sentido? Muitos cientistas foram atrás de respostas para essa questão do tempo. Existem muitas teorias, mas uma em especial está relacionada com nossas memórias e experiências.

Ainda no século XIX, o psicólogo William James se interessou pelo tema e descobriu que a sensação da aceleração do tempo está diretamente ligada com um número cada vez menor de vezes que fazemos algo pela primeira vez.

O cérebeo humano se desenvolve com o passar dos anos com a missão de reconhecer padrões. Quando você é uma criança, o tempo passa mais devagar porque tudo é uma grande e divertida novidade.

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Quanto mais novos mais vivemos as experiências inéditas, os chamados “eventos memoráveis”: o primeiro dia na escola, a primeira vez que andamos de bicicleta, o primeiro beijo, a primeira medalha na natação ou no judô, a primeira viagem sozinho ou até o primeiro emprego. As férias de verão duram como se fosse uma eternidade.

Por outro lado, já adultos, passamos a repetir mais o que já fizemos e a valorizar menos as experiências banais. Automaticamente, relembramos destes momentos “comuns” menos vezes. Os padrões começam a se repetir e, por isso, o seu cérebro não grava aquilo como algo importante.

Viajando para desacelerar

Inconscientemente, talvez seja por isso que gostamos tanto de viajar. São durante as viagens que criamos novas sinapses, as conexões que fazem as células do cérebro se comunicarem entre si, produzindo pensamentos, os tais momentos memoráveis e desacelerando o tempo.

Dezembro traz a marca de 150 dias da minha viagem de volta ao mundo. São 3/4 do período total longe de casa. Inevitavelmente começo a pensar em tudo o que já passei até aqui, as experiências novas que vivi, os lugares únicos que conheci, os momentos em que me surpreendi, as descobertas, os aprendizados…

O mais curioso é que, pela primeira vez em muito tempo, na minha cabeça é como se o ano de 2015 tivesse se alongado por um período maior do que os normais 12 meses. Tenho a mágica sensação de estar na estrada há muito mais tempo do que realmente estou. Poderia até arriscar a dizer que todo esse tempo viajando é como se fosse uma vida inteira.

Só que, seja viajando seja numa rotina de casa-compromisso-casa, componentes do mundo moderno como a tecnologia, a ansiedade por saber de tudo a todo momento e a rotina nos grandes centros urbanos vai nos deixando cada vez mais com o pressentimento ruim de que não é possível fazer em um dia tudo o que gostaríamos. Falta tempo, corremos atrás dos ponteiros do relógio e sentimos pressa desde o momento em que acordamos até o minuto em que vamos dormir.

Reclamamos dos cinco segundos de propaganda no Youtube até que possamos assistir ao vídeo, mas nos esquecemos de que há 15 anos levávamos uma hora para fazer o download de uma música de três minutos.

Apertamos incansavelmente a tecla que fecha a porta do elevador para economizar segundos, mas esquecemos que um dia o mundo funcionou – e bem – com o envio de cartas que levavam semanas para chegar ao endereçado.

O excelente comediante Louis CK exemplifica com perfeição essa síndrome de “The Flash” que teimamos em viver.

Outra teoria sobre a passagem dos anos defende que a percepção de alta ou baixa velocidade está diretamente ligada ao tempo de vida de cada indivíduo. Para uma criança, o mês de dezembro é um período quase infinito de espera pelos presentes de Natal. Quando pequeno, você conta os dias, as horas e os minutos até a chegada do Papai Noel no dia 25. É só isso o que se passa pela sua mente ansiosa.

Os adultos, sem esperar mais pelos presentes, se concentram em todas as inúmeras obrigações do trabalho, da escola e dos planos de final do ano que praticamente nos impede de notar a passagem do tempo.

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Quanto mais velhos ficamos, mais enxergamos o próprio passado pela lupa do tempo que deixamos escapar. E o que as viagens nos ensina é que, se você quer acabar com essa ilusão, o melhor é se ocupar de fazer algo inédito, aprender sobre o mundo e até sobre você mesmo. Quem nunca ouviu a frase: “Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”.

Para especialistas, lidar melhor com esses distúrbios contemporâneos passa muito por valorizar o presente, dar atenção às próprias ações e emoções. Viver a vida menos no automático e com mais consciência do que acontece ao nosso redor e interiormente.

Viajar significa desacelerar e se libertar de urgências falsas. Significa se colocar novamente numa humilde posição de aprendizagem e grande concentração. Significa voltar a ser aluno, com menos respostas e mais perguntas. Quem sabe, com um olhar de criança, até voltar a sentir que o tempo deu uma desacelerada.

No final das contas, cedo ou tarde percebemos a mais pura verdade: o tempo não para. Pode parecer muito óbvio, e é. Mas parafraseando uma frase de um dos primeiros filmes (um dos meus momentos memoráveis) que lembro ter assistido: “Life moves pretty fast. If you don’t stop and look around for a while, you could miss it.” Traduzindo: “A vida se move rapidamente. Se você não parar e olhar ao redor de vez em quando, você pode perdê-la”.

Salve Ferris!

E você? Já apertou alguma vez o botão da desaceleração?